Como posso eu segurar o copo sem esquentá-lo? Aprenda a
reter algo em você sem modificá-lo. A tocar sem interferir. A amar sem
danificar. Depois continue.
Quanto mais laranja e marrom, mais velho se apresenta a
bebida.
Então as cores da alma do vinho se espelham na mistura do
por do sol e do tronco das árvores. Tá aí a concepção sábia da velhice: sol que
se vai e deixa o céu alaranjado de saudades; tronco que no marrom guarda as
marcas da história de uma vida longa de observação, imersão e calma.
Quando bebo, observo: coloração, cor e cheiro. Nessa ordem.
Por favor, não modifique o ritual das coisas boas.
Depois atente para o reflexo da bebida. Se violeta claro:
vivente. Se marrom: maduro.
Atenção, pois para bem se ver o reflexo da alma de um vinho, deve-se olhá-lo atrás de uma superfície confiável, estável e limpa. Para se ver
bem algo é preciso de calma, sabedoria e transparência. Pois então uma parede
branca se faz necessário. Algo de
concreto para fazer ver.
Na sequência a poesia dos aromas. Sinta o cheiro desse
líquido.
Sinta se seu aroma muda da calmaria de um copo estável para
o balancê de um copo que gira em si mesmo na busca incessante de misturar suas
partes perdidas da memória de sua constituição e feitoria. Repita o antes de o depois. Entre nessa dança
de partículas. Sinta seus átomos exalando história.
Perceba como é a mutação de algo que está estático e algo
que se move em si.
Rodopie esse líquido na intenção de transformá-lo em algo
que ele nunca foi. Rebole suas partículas para que ele sinta sua potência
energética e se entregue, liberando assim seu sabor. Sua magnitude elaborada de
tropeções, socos, ondas reversas e versas.
Sinta as mudanças de paladar, de aroma, de arrepio, de
sentimento, de emoção, de sensação.
Deixe que esse líquido encontre sua boca quente numa
perspectiva embriagante de afeto e acolhimento.
Deixe que o vinho te enterneça.
Te adormeça.
Te ensine a
amar.
Linda analogia! :)
ResponderExcluirObrigada, flor!
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