quinta-feira, 2 de junho de 2016

Poema do Vinho

Como posso eu segurar o copo sem esquentá-lo? Aprenda a reter algo em você sem modificá-lo. A tocar sem interferir. A amar sem danificar. Depois continue.
Quanto mais laranja e marrom, mais velho se apresenta a bebida.
Então as cores da alma do vinho se espelham na mistura do por do sol e do tronco das árvores. Tá aí a concepção sábia da velhice: sol que se vai e deixa o céu alaranjado de saudades; tronco que no marrom guarda as marcas da história de uma vida longa de observação, imersão e calma.
Quando bebo, observo: coloração, cor e cheiro. Nessa ordem. Por favor, não modifique o ritual das coisas boas.
Depois atente para o reflexo da bebida. Se violeta claro: vivente. Se marrom: maduro.
Atenção, pois para bem se ver o reflexo da alma de um vinho, deve-se olhá-lo atrás de uma superfície confiável, estável e limpa. Para se ver bem algo é preciso de calma, sabedoria e transparência. Pois então uma parede branca se faz necessário.  Algo de concreto para fazer ver.
Na sequência a poesia dos aromas. Sinta o cheiro desse líquido.
Sinta se seu aroma muda da calmaria de um copo estável para o balancê de um copo que gira em si mesmo na busca incessante de misturar suas partes perdidas da memória de sua constituição e feitoria.  Repita o antes de o depois. Entre nessa dança de partículas. Sinta seus átomos exalando história.
Perceba como é a mutação de algo que está estático e algo que se move em si.
Rodopie esse líquido na intenção de transformá-lo em algo que ele nunca foi. Rebole suas partículas para que ele sinta sua potência energética e se entregue, liberando assim seu sabor. Sua magnitude elaborada de tropeções, socos, ondas reversas e versas.
Sinta as mudanças de paladar, de aroma, de arrepio, de sentimento, de emoção, de sensação.
Deixe que esse líquido encontre sua boca quente numa perspectiva embriagante de afeto e acolhimento.

Deixe que o vinho te enterneça. 
Te adormeça.
Te ensine a amar. 

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