quarta-feira, 14 de março de 2018

aquela velha solidão de arame

minha antiga alma
que bom saber que está aqui
mal vejo seu reflexo mas sinto tua presença nesses pássaros loucos cantando sempre do lado de fora

aquelas agonias vão bem, e as suas?

eu tava experimentando poesias azuis e tentando me lembrar o porquê das coisas quando a janela se abriu num impulso vital
logo ouvi barulhos de passos e pessoas desconhecidas que somam ao nada e
senti medo

as madrugadas tem sido opacas - coração disparado
eu escrevo agora porque tinha também me esquecido que podia o fazer
e somente depois de muito dizer cotidianidades de vida trivial, de dor trivial, de aqueles velhos acordos com a preguiça ancestral do mundo é que tive como poder escorrer de uma forma mais legítima em minhas folhas amarelas

meu eu deslizando escada a baixo

naquele infinito que esperamos, pousa a memória flácida das mãos-dadas, diga, vc também queria não ?

sonhei com um homem que entrava com dois cachorros em casa, e depois se deitava ao meu lado, e mesmo que eu não pudesse sentir nada sobre sua presença e mesmo que eu não o conhecesse - eu me calei, e isso foi o mais estranho de tudo

eu me calei

o mundo tá cheio e arames né não?
eu às vezes não vejo os solos por onde pisar e fico fico fico

sei que tem aquele negócio de se permitir sentir, experimentar o corpo nessa existência
poder provar do amargor das consequências civilizatórias e até fugir se algo importante desmoronar-
tentar me recompor

mas os passos, esses é que absorvem atravessados os segredos da resistência
que é palavra oca
palavra capitalista

pois bem, paremos de resistir à tudo e posemo-nos a nos entregar
enxurradas de dores, amores, tropeços, solidões
arte talvez
choros entupidos, noites sem dormir

até que se desobstruam os canais
até que esteja liberado, enfim, o caminho da liberdade
até que o silêncio não mais incomode
as palavras se aveludem
meus órgãos respirem tranquilos
e todos que quiserem possam querer

repertórios de mim

É um lugar pra guardar meus escritos porém lido bem melhor com papel
eu quero entrar em contato comigo
quero encarar nos olhos a dor do que sinto, a cada minuto
porque isso é melhor do que passar horas fugindo de sentir, sem querer

esses dias tem sido de impertinentes atravessamentos
me vejo atravessada por desejos consumistas, sexuais, financeiros, egóicos
previsíveis nessa sociedade
normais de ter que se lidar

mas como não escolho sentir cada coisa em sua hora, vou acumulando todas
o que forma uma certa bolha de agonia em minha garganta
escuto, escuto, escuto

dou atenção

repito

sinto medo
raiva

agitação e dor

não quero dormir sozinha, não quero dormir em casa, acho que nao tenho casa, acho que nao tenho dinheiro, carreira, acho que nao to sabendo ser feliz, sinto culpa

quero fuga, fugir, fugir, fugir

amar, encontrar, entregar, andar, nadar, sentir


mas quando tropeço nas minhas constituições o mundo não me apoia e é esforço tremendo esse de poder ver por outra ótica
esse de poder sentir por outra via

estou com sede, dormi rapidamente como em desmaio
tenho coisas pra fazer e me esforço pra lembrar o porque de ter que fazê-las
é como se eu não as fizesse por mim
mas é justamente apenas por mim que as faço

não lembrava disso
minha criatividade desponta quando aprendo a ponta da lembrança dos porques mesmo sabendo que são todos fictícios,
pois tem uma linha solta agora escorrendo de minhas mãos.

tem uma lembrança enveludada
e ninguém mais soube entender sobre isso

ontem se repetiu coisas
coisas se repetem sempre
me encontro sozinha e isso é...


não sei mais

 eu mesma

aquela venha solidão de arame