minha antiga alma
que bom saber que está aqui
mal vejo seu reflexo mas sinto tua presença nesses pássaros loucos cantando sempre do lado de fora
aquelas agonias vão bem, e as suas?
eu tava experimentando poesias azuis e tentando me lembrar o porquê das coisas quando a janela se abriu num impulso vital
logo ouvi barulhos de passos e pessoas desconhecidas que somam ao nada e
senti medo
as madrugadas tem sido opacas - coração disparado
eu escrevo agora porque tinha também me esquecido que podia o fazer
e somente depois de muito dizer cotidianidades de vida trivial, de dor trivial, de aqueles velhos acordos com a preguiça ancestral do mundo é que tive como poder escorrer de uma forma mais legítima em minhas folhas amarelas
meu eu deslizando escada a baixo
naquele infinito que esperamos, pousa a memória flácida das mãos-dadas, diga, vc também queria não ?
sonhei com um homem que entrava com dois cachorros em casa, e depois se deitava ao meu lado, e mesmo que eu não pudesse sentir nada sobre sua presença e mesmo que eu não o conhecesse - eu me calei, e isso foi o mais estranho de tudo
eu me calei
o mundo tá cheio e arames né não?
eu às vezes não vejo os solos por onde pisar e fico fico fico
sei que tem aquele negócio de se permitir sentir, experimentar o corpo nessa existência
poder provar do amargor das consequências civilizatórias e até fugir se algo importante desmoronar-
tentar me recompor
mas os passos, esses é que absorvem atravessados os segredos da resistência
que é palavra oca
palavra capitalista
pois bem, paremos de resistir à tudo e posemo-nos a nos entregar
enxurradas de dores, amores, tropeços, solidões
arte talvez
choros entupidos, noites sem dormir
até que se desobstruam os canais
até que esteja liberado, enfim, o caminho da liberdade
até que o silêncio não mais incomode
as palavras se aveludem
meus órgãos respirem tranquilos
e todos que quiserem possam querer
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