segunda-feira, 27 de junho de 2016

Das terças virais

Têm homens fumando charuto nas meses da tabacaria do centro da cidade
Eles são cópias nojentas de um protótipo em extinção
De uma luta por aniquilamento do outro
Mas eles não são culpados, ou pelo menos não são os únicos.

Divisão inoportuna dos dias em momentos onde retiro o ar com mais qualidade do mundo ou apensas vivo.
São sonhos que crio e deixo flutuar sobre um céu azul de algum lugar do mundo.
Algum lugar muito dolorido.

São dias,

Na imensidão dos tetos e dos diálogos há sempre demasiada indolência obscurecida.
Há sempre aquela conhecida falta de sentido.

A vida vai passando e as coisas ficando para trás
Umas pulam a correnteza coesa dos acontecimentos e vão se transformando em lembranças que se assemelham à fatos acontecidos, mas são apenas criações de uma mente atravessada pela sociedade moderna-doente.

Ninguém consegue entender os porquês de tudo existir a todo momento que a vida é vida, propriamente dita.
Eu erro muito, toda hora. E talvez seja mesmo assim que seja pra ser. Erros.
Coloridos, divertidos, repetidos, encantados, sofridos, culpados: erros.

E não tem final feliz.
E não tem perda de culpa.

Têm flores e manhãs. Têm prazo  e recompensa.
Têm luas lindas a agigantar o céu claro de estrelas.

Amores perdidos, esperanças renovadas, datas que passaram e que se esqueceram. Se perdem ao esbranquiçar do tempo, semelhantes às idades.

Algo que nunca mais será encontrado.

Infâncias lindas e formadoras do agora se retraem para dar espaço para o novo. O novo que reconstruímos para depois esquecer.

Vícios que adquirimos para depois mudar e ser outro.

Na ineficácia das correntes de pensamentos, sinto minhas costas cansadas de tentar ficar eretas e falharem.

Sinto o amor distante porém latente, poente.

Eu queria ser uma bomba.


quarta-feira, 8 de junho de 2016

Por todas

Tô aqui carregando o peso do desamor que vem de mim
me culpando por me achar incapaz
por não me amar quando erro
por não ceder quando choro

Mas no dia-a-dia as coisas ficam quebradiças
vai tudo se coisificando e perco o sentido dos sorrisos facilmente se não olho atenta
Eu desnudo a vaidade dos outros com uma certa facilidade
Mas a minha fica trancada por um chave enigmática que até hoje ninguém me ajudou a achar

Sou de uma natureza desconhecida por mim
e me acho egocêntrica se fico pirando, procurando entender o meus mecanismos
Sinto-me sozinha e de vez em quando tenho medo por gostar tanto assim da solidão

Quando me obrigo a fazer algo
desabo por completo


E é isso.


Inviável seria  me odiar por encontrar aqui lugar de desaguar
Isso prova que me amo
Isso prova que me procuro e que me acho nas palavras que soltam da minha vã filosofia

Nas minhas nadadas falidas do amor.

Prometer falhar e ser imperfeita, meio que todo mundo faz, meio que pode ser até uma zona de conforto.
Eu não sei nada sobre mim e isso me assusta na mesma medida que me encanta.

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Poema do Vinho

Como posso eu segurar o copo sem esquentá-lo? Aprenda a reter algo em você sem modificá-lo. A tocar sem interferir. A amar sem danificar. Depois continue.
Quanto mais laranja e marrom, mais velho se apresenta a bebida.
Então as cores da alma do vinho se espelham na mistura do por do sol e do tronco das árvores. Tá aí a concepção sábia da velhice: sol que se vai e deixa o céu alaranjado de saudades; tronco que no marrom guarda as marcas da história de uma vida longa de observação, imersão e calma.
Quando bebo, observo: coloração, cor e cheiro. Nessa ordem. Por favor, não modifique o ritual das coisas boas.
Depois atente para o reflexo da bebida. Se violeta claro: vivente. Se marrom: maduro.
Atenção, pois para bem se ver o reflexo da alma de um vinho, deve-se olhá-lo atrás de uma superfície confiável, estável e limpa. Para se ver bem algo é preciso de calma, sabedoria e transparência. Pois então uma parede branca se faz necessário.  Algo de concreto para fazer ver.
Na sequência a poesia dos aromas. Sinta o cheiro desse líquido.
Sinta se seu aroma muda da calmaria de um copo estável para o balancê de um copo que gira em si mesmo na busca incessante de misturar suas partes perdidas da memória de sua constituição e feitoria.  Repita o antes de o depois. Entre nessa dança de partículas. Sinta seus átomos exalando história.
Perceba como é a mutação de algo que está estático e algo que se move em si.
Rodopie esse líquido na intenção de transformá-lo em algo que ele nunca foi. Rebole suas partículas para que ele sinta sua potência energética e se entregue, liberando assim seu sabor. Sua magnitude elaborada de tropeções, socos, ondas reversas e versas.
Sinta as mudanças de paladar, de aroma, de arrepio, de sentimento, de emoção, de sensação.
Deixe que esse líquido encontre sua boca quente numa perspectiva embriagante de afeto e acolhimento.

Deixe que o vinho te enterneça. 
Te adormeça.
Te ensine a amar.