quinta-feira, 22 de setembro de 2016

A profundidade do que invade

Noite fria
Velas acessas
Vocês descalços na sala
Sentados pelas almofadas ao chão
Respirando a fumaça da enforia calma, tão precisa e preciosa
Eu, envergonhada
pisoteando as incertezas
Com medo de adentrar
A vida

Medo de tocar os corpos
Com sede de intimidade

Foram se desfazendo os nós
E se abrindo o abraço, o toque
cada vez mais largo, cada vez mais forte.

Até que mergulhamos.
O jazz ritmando os movimentos
O encaixe brincando de adivinha
Nós, sombreados pela noite
Abertos ao acaso
Desleixados com as velhas tradições
Loucos de desejo.

Amanhece lá fora
Água escorrendo branda do corpo lépido
Cai chuva interna
Vontade de ficar
De beijar
De deixar continuar
Infinitamente

Até a tremedeira que me dá
Decidir morar em mim
E a vida ganhar outra cor.
Celeste-prazer-carnal
Corpo que ligado, ferve o sangue.

Que descoberta.
Que ternura.
Que espanto bem-vindo.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Três

E qual é mesmo o papel que preciso?
Preciso ter um papel?

Preciso ser observada ou atuar?
Atuar? Amar?

Preciso ser eu?
Eu mesma, acostumada, conhecida, esperada, subversiva, romântica, alegre, rápida e desesperada?

Não.

Não preciso do replay de mim
Viciado no erro, com medo de largar o hábito de ser eu.
Agarrada a carcaça esquelética da infância, dançando uma não-música numa sala fria e vazia
dentro de mim.




E quando arrisco a dança do novo
estremeço o chão de trincas
e gritos

Vou colorindo de desejo e absurdo
todo o caminho
Que antes era branco

Estava repleto de mim, cansado de mim -  repetida -  mal querida
conhecida, chata, sem graça
Perfeitamente banal na imensidão

E com passos que vão se atualizando no compasso da relação com o outro
vou me diferenciando
estremecendo ... me entregando
guarnecendo
colhendo
gemendo, gritando..........até               EXpLoDIr.

de azul    vermelho    e roxo

Todo o quarto quente
Todo o céu branco
Todo o vento morno
Toda a tarde branda
Toda a primavera sã
Todos os corpos tontos
[Todo desejo. ]

Reativando as partes esquecidas e recobrando as facetas de vida que se torna, novamente larga
segura, completa, limpa
  Sem peso do corpo

Com o peso do corpo todo
Nu
Suado, nutrido, cansado, tremendo, metade gelado, metade quente                    Desestruturado
fragmentado em partículas de pequenices mundanas

em construção.


Demasiada foi a espera pra chegada da onda que tudo invade e num curto espaço de tempo
transforma, renova e transgride
tudo que era antes água parada
agora é fluxo de enxurrada
cachoeira
espumada
corrente
quebrada


Na varanda escuto a água que escorre
pelo chão e pelos poros

Sou água que inunda, que molha por dentro e por fora

transborda.

Ato

Hiato 
                                                              Espera
Compasso                                             
Cores
Ressalva 

Sorriso 

Permanência
Desejo
                            Compromisso
                                                                                                                                                  Esperança
      Afinco

Sábado
Chá
Silêncio 
Sabedoria 
Calma 
             Tropeço
                                    Espirro
Apneia 
Espontâneo
Espanto. 



quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Assumo o rascunho

A ansiedade é um bicho que come de dentro pra fora
é a cutícula presa da unha do pé
É uma aberração dos nossos tempos

e tem tantas tralhas na minha mochila. Nem sei mais quantas sou.

hoje foi feriado, assim, de repente
Eu ouvi a manhã chegando com a cara da ressaca e quase não consegui respirar
A fumaça doce entrando pela garganta e o peso de todas as mudanças fazendo música aos meus olhos

olhos cor de espanto breve

que passa passa rasga queima devora dispara dissipa amedronta e ataca o presente

a praia lá parada azul piscando beleza aos corações dos que nada querem ver

Eu comi o presente sem perceber e depois fiquei me apoiando na bengala da culpa pra me divorciar da vida, mas aí quando fui tomar banho e percebi o peso da dor nas costas eu nem consegui chorar.
Fui só pisoteando as mágoas e saindo rápido do banheiro, esqueci de me masturbar, e era tarde. Era cedo.


Sempre quero mais de tudo e nunca sobrou lugar pro nada.
Tem voz na canção. Calma que você já vai ver.

Meus pés repousando na areia suja da praia linda
a bicicleta azul observando o mar
É tão triste quando se esquece uma frase bonita
E tudo carburou perfeitamente num sorriso


Eu a lua e o mar

Estava tudo recortado em quadrinhos, labareda.


E fui ficando pequena, mais pequena, até que os olhos se inverteram de medo e tive que parar de tremer. no agora e no silêncio.
Nocivamente brincando

Solto meu corpo e respiro grandes incertezas.
Eu e minha vida por um tiro de palavra.

E nada repousa mais mórbido naquela Esfinge.Apenas ela lá reinando, todo corpo feito pedra, deitada, majestosa nas terras do Egito, na margem oste do rio Nilo, em Gizé, lá no Egito.
Egito.
Egito.


Eu já fui lá em sonho, e agora me encontro presa, condensada. Perplexa com o passar dos anos.
Nada do meu amor tem mais olhos brancos do que aquela manhã de fevereiro onde corri campos em suor e naquela cama ficou todos os nossos poros pregados no lençol fonte-testemunha.

Agora começou a chover, acredita? Eu quase tô sorrindo.
Pera.
Eu sorri sim.
Parei a música pra ver se não era sonho.

Então sente: tenho o privilégio de digitar meus devaneios enquanto goteiras de nós orquestram sinfonia de pingos em telhas de tijolos e chão frio.


Pés que caminham por água de chuva ão de caminhar melhor, pra sempre.Eu sei que você sabe disso.

Vai se abrindo de mansinho às massagens que a respiração faz no pulmão e vai ganhando espaço para a existência.

E num momento onde tudo começa pela ânsia, tudo cessa pelo batuque da água. E desfaz os nós da parte escura de nós.

E vai preenchendo os cantinhos antes vazios agora inundados.

E vai flutuando e carregando a sujeira das nossas casas de interior.


Diariamente.