sábado, 14 de novembro de 2015

Monólogo do Mundo

Trombose relampejante
aqui estou na falseta da vida
equilibrada entre as notícias
que disputam lugar de mais ojeriza
em mim

Aqui estou
relendo textos antigos
ocupando a mente de algo desconsertante
pra não ver a fundura no estômago que tudo isso ta causando
em mim

Não quero vasosdilatadores de veias
de amores de dores
não quero anti-histamínicos descontrolados
controlando o mar revolto que derruba todas as embarcações que navegam
em mim

Amanheceu tudo e eu pensei que o dia fosse bom
que o sorriso ia nascer farto nos lábios da imensidão
que a ressaca ia passar serena escorrendo pelas mãos
Mas apavorou o descaso da solidão e ardeu a armadilha que sinto que vem do seu silêncio
em mim

Eu que estava descalça na sala vendo a luz do dia caminhar lentamente pro fim
ouvia a televisão vomitando assustadoramente casos absurdos de desamor
e espalhando seu suor maligno de ignorância e maldade no mundo
estilhaçando a calmaria que deveria me abitar e cortando as esperanças que um dia moraram
em mim

Tava tão disposta a esquecer os velhos costumes
me acostumar com o calor vermelho do verão do agora
me abrir em vento pra imensidão da vida
respirar verde em momentos de possibilidades infinitas
mas a humanidade ainda está delimitando seus territórios e hierarquizando suas culturas ancestrais
e nada mais faz sentido
em mim

E esse meu egocêntrico monólogo de traz pra frente
que reflete os dentes de um sorriso amarelo claro que só sabe olhar no espelho
que só sabe falar de si e olhar pra si
sentir o que ta em mim, pra mim, por mim, para mim
e morrer sufocado de tantos eu's presos na retórica contada pela história desabafada de uma vida calada.

Esse meu eu maior que domina o mundo
essa sombra vivente que cresce na imensidão do escuro por entre as mãos, os dedos, os ossos
que impede a compreensão das horas, das vidas, das misérias, das discórdias
que fere com vingança o que já está ferido
que suja de lama a roupa branca do fim de ano triste, desesperançado
sem sorriso, sem batom vermelho, sem amor
sem mim.