domingo, 23 de novembro de 2014

Tarde de Fumaça

E talvez seja isso
A razão pela qual eu não consiga escrever nada que não seja isso
O motivo pelo qual meu quarto esteja quente, muito quente
E lá fora esteja quase congelando, de fato está  

E o porquê das folhas estarem voando com o vento, mortas
E da neblina cheirar a inverno, ainda vivo
E as cores estarem sempre vívidas, límpidas
E os amores sempre ardendo no peito, doentio

Não consigo simplesmente mudar de assunto
Sempre vou falar e falar e falar sobre algo que em mim pulsa constantemente
Minha astucia perspicaz, minha tendência viciada
Meu sujeito preferido

Eu ainda tento abrir a janela, é verdade
Deixar que a temperatura se misture
Que os ares se contenham
Que a música se traduza em pele, suor e desejo

Mas é tudo rápido demais em mim

 As vozes sempre roucas e cansadas
Sempre tentando convencer em qualquer língua, em toda parte
Que todos estão a procura sempre de alguém
Alguém que seja digno de amar
Alguém pra quem escrever
Alguém que não o faça sofrer

Absolutamente tudo em mim e em nós vibra por isso
E eu não consigo deixar de escrever sobre esse assunto
Como se tudo que saísse de mim
Absolutamente tudo
Fosse voce
 


Calma
Não é só voce
Foi quase isso
Mas depois eu respirei e ainda consegui ver o mundo ao meu redor

Inimaginável como o tempo que voa manso na  asa da vida pode transformar tudo
E agora de longe e de perto eu vejo bem melhor
Bem mais vivo, além de quente e claro
Se falo de mim, é porque preciso ser eu pra viver

Mas meu sujeito preferido continua sendo o mesmo

Você

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A arte do acaso – Barcelona 03/10/2014

E naqueles dias de chuva em que se é capaz de mudar todos os planos pra ficar em casa e não fazer nada: saí em busca do céu.
Na primeira parada do metro, encontrei-me com uma realidade que há tempos não me lembrava( pode-se esquecer facilmente essas coisas). Uma exposição sobre trabalho infantil no Peru me aguardava.
Com fotos que me transportaram pra um mundo de desencanto, colorido pelas cores do  lixo.
Crianças, mulheres e homens sorrindo em meio aos destroços que ninguém quer mais. Fazendo de sua morada, a única possível, diga-se de passagem, a morada dos urubus.
Permaneci insólita nessa exposição por cerca de 40 minutos. E nesse corredor de morte e de dor, ninguém quis entrar.
Uma exposição gratuita de realidade completamente vazia, em uma das cidades mais turísticas do mundo.
Corro o risco de ser julgada como “a única pessoa que entrou” ou a “ boazinha”, mas levando em consideração o que isso representa e o poder dessa exposição e dessas conclusões sobre mim, passo adiante o medo de me expor e a possibilidade insignificante de escrever essas palavras em vão. Além do mais já passou das 2horas da manhã, estou afogada na contrariedade da vida , não dá pra continuar com preguiça  de discutir.
Eu respirei o ar cheirando a lixo, senti a tristeza da injustiça social sobre minha cabeça, assim como uma pedrada beeem forte, sem esperar, e me retirei. Flutuando na desgraça ou graça do acaso que se ocupa da “arbitrária roleta genética”que se ocupou de mim e me sorteou como turista em Barcelona, e não como protagonista dessas fotos.

A cada passo que eu dava, a cada cheiro que eu sentia, depois já caminhando por uma das avenidas comerciais mais ricas de Barcelona, me questionava o que podia ser mais contraditório: uma exposição daquelas que arrancava as lágrimas dos olhos com a mesma violência que mata aquelas crianças de fome em todo o mundo estar disposta à 5 minutos de uma obra de Gaudi , onde pessoas muitas vezes lindas e burras atravessam apressadas com suas sacolas de compras e são incapazes de perceber o “outro mundo” que não é outro, e sim o mesmo, ao seu lado, em baixo dos seu narizes finos empinados; ou eu, ali, caminhando com minhas roupas de brechó, minhas frutas na mochila e meus olhos de assombro de quem vê o mundo pela primeira vez.










O dia segue comigo, meu ego e o mundo
Alguns passos, mais um metro, fico perdida por 20 minutos porque não possuo a capacidade de me achar em mapas ( inclusive nos mapas da vida) e me deparo com outra exposição.
E dessa vez foi ainda mais forte, não pude respirar quando li o nome, foi  muito profundo e muito surreal pra de fato acreditar.
Há anos leio livros sobre a vida das mulheres no Afeganistão. Suas dores e sua realidade são tão ensurdecedoramente tristes que me arrebatam, me tomam por completo interesse.
Muitas pessoas conhecem  o livro chamado “O  Caçador de Pipas”, e o mesmo autor escreveu mais dois livros chamados “A cidade do Sol” e “ O Silêncio das Montanhas”. São três obras lindas, se é que se pode dizer isso, porque são realmente fortes. Profundas. Profundamente tristes. Não é todo mundo que gosta ou se sente bem. Eu entendo perfeitamente quem não gosta.
Essas obras tratam da vida das mulheres afegãs. “Coincidentemente” o mesmo tema da segunda exposição que me pegou pela mão no meio da rua e me levou pra dentro desse mundo.
Os e as personagens das histórias dos meus livros estampados(as) na parede, bem grande, bem próximo, bem na minha frente. De graça. Sem querer.
Estasiada pela exposição das crianças do Peru, fui transportada para  essa outra realidade, esse outro  mundo, realidade essa parecida em relação a níveis de violência, morte e dor.
Essa é também a minha realidade. Essas mulheres também sou eu, somos nós. São muito mais que nós , na verdade. São mais fortes. Mas ninguém as vê.  Poucas pessoas ao ouvem, poucas pessoas as ajudam.
Saí dessa exposição trocando os passos, perdendo os pensamentos em riachos de confusão e inverdades.
De tudo que eu não sei, sei que minha realidade que não é Barcelona City, minha nada europeia vida me deu um banho de água com gelo e sangue hoje. Sangue das mulheres do Afeganistão e das famílias que vivem no lixão no Peru.
Tentei continuar respirando, caminhei e caminho até agora, só que diferente, meu caminho parece estar um pouco mais forte, digo, melhor traçado.
Sei que esse sofrimento todo também existe no meu país, sei que há disso por toda parte. Resta continuar. Resta tentar.

O coração bate forte, aos pulos, e os olhos celebram a desconfiança, observam  a cultura do terror e da violência mas brilha quando acredita no amor que eu sei que exite em nós.
















Caminho além-mar


Acalento brando, seco, quente
Quem és tu que eu sei que é?
Quem és tu que virá a ser um ser que é?
Pra mim, meu, pra nós ?

Na flutuante corrente do ar
Que pousa nas folhas agora vermelhas e depois em mim
Sei que respirastes do mesmo oxigênio
Sei que é nele que está sua vida

De tudo que me destes, do amor e da poesia
A presença que marcastes é de tudo o que eu mais temia
Pois agora estou livre, de fato livre, pra voce
Agora me despeço de tudo que desaprendi fazendo errado

Aqueço o quarto com a lembrança de outro quarto
De outro tempo que passou rápido
De poucos olhares trocados , de ligeiras mãos dadas ao fim da noite
De beijos apressados e cansados de falar


Percebo a bestialidade do acaso
O espelho das folhas, das flores e das árvores
Que me refletem coloridamente acompanhada de mim
Sozinha na marcha bendita

Mas não por todo o tempo que resta
E tudo que desaprendi aqui é pra aprender com voce
E tudo que sofri aqui é pra me alegrar com voce
E todo medo de deixo aqui é pra encorajar com voce

Pela primeira vez agora
O suflo renovado de consciência e coragem
A certeza de quase nada, esse nada que muda rápido
E o amor nas mãos prontas a enlaçar nas suas, mansas e poéticas mãos

Mãos de viola, mãos de muitas outras
Mão de trabalho, de choro e de dor
Mãos de abraço, mãos de pressa
Mãos que entendem,  mãos que esperam

Mãos que recebem do mar
A carta que envio no tempo
O sorriso preso no abraço
O acaso metido no cansaço

E a certeza do reencontro no verão  

O que se aprende com o fogo


E como se nunca o tivesse experimentado antes
Me foi dada a missão:
Ame. Faça um fogo
Nas tentativas primitivas frustadas encontrei  na pressa a primeira inimiga do amor

Nas precedentes fui observando a importância da paciência
Do recomeçar
Capacidade essa que não se aprende somente com o fogo
Fui namorando com ele, bem devagarinho o descobrindo

Me disseram que a chama constante é o segredo
Mas pra que isso ocorra é preciso estar atento
Ser presente e ser disponível. Se dedicar
Todas as manhas frias exigem um fogo calmo e quente

Todos os dias aprendo com ele a me reinventar
A me deixar tentar mais uma vez
E dar espaço entre os galhos secos
Agora reciclado em calor e conforto

Do amor que não se aprende
Do fogo que não esquenta , o mundo esta farto
Na labuta do aprender, a natureza vai ensinando as coisas do coração
E pra cada folha que cai, um espelho de imensidão de nós


Relatos do tempo que passa



E quem diria que seria no céu que eu contraria minha luz
Em meio aos campos infinitos, aos pomares perfumados, a grama verde viva, as nozes pelo chão 
O céu pincelado se apresenta como o mais bonito
De surpresa me pego pensando se ele é mesmo de verdade
Porque parece cuidadosamente pintado por alguma (o) artista doida (o) e genial.
Desaba por sobre mim sua beleza imensurável , todos os dias
Despedaça minha razão em pequenas nuvens insignificantes
Obra de arte viva de todos os dias de sol




Relatos do tempo que passa II

Agora mergulho nesse silêncio cantado pelos pássaros
O vento e o sol roçam minha pele, acariciando devagar o que o tempo me fez compreender que é meu
A minha respiração ainda não acostumada com a vida disposta aos meus pés, rejeita a calma e a postura
Mas não desisto de alinhar o corpo e a alma
Eu flutuo no ar, nas nuvens do céu do mundo
Parto pra outra dimensão segura da verdade
Escolho fazer o que quero e dou as mãos pra mim mesma por toda a vida restante

Agora chove de novo
A realidade vai virar sonho um dia, eu sei
No ciclo de tudo, manso tempo, mansa chuva
Gotas de lágrimas, gotas de vida
Escancaro a bestialidade de se poder estar aqui

Relatos de dentro pra mais dentro ainda
É fim do dia
Terça feira chuvosa, dentro e fora. Como sempre
Quero lembrar de hoje como o dia da Aventura da Compaixão
Transformei diversas vezes o rumo do dia, para desaguar numa noite com lágrimas e sorrisos
Decidi que quero o sorriso livre pra mim
Tenho 20 nada anos e ainda não pude sorrir livremente, como aqueles sorrisos que fogem a boca no meio do jantar, aqueles sorrisos sem preço, sem motivos, sem nada, sabe?
Carrego ou carregava a sensação de algo errado a consertar, um trabalho a terminar, um adeus a dizer.
Mas perco a cada instante a urgência da vida, das horas, das despedidas.
Vou deixando a preocupação pelas esquinas iluminas em que passo sem perceber o caminho
Vou me livrando pouco a pouco da preocupação,  como quem tira um casaco porque esta muito quente, assim, rápido.
A verdade que enxergo carrega uma maleta chamada coerência, uma senhora simpática e bondosa, porém extremamente rígida, como os (as) alemães (as).
Na vaidade frustada e consumista de hoje em dia é muito fácil perder minha rédea, eu já perdi muitas vezes em dia de carnaval.
Desabafo pra ninguém mais ver, pois preciso do reflexo de mim sozinha.
Preciso aprender .
A dizer não e a dizer sim.
Conheci pessoas que me fizeram dar um salto, como pra poder ver mais,como pra poder pegar pra mim tanta doçura,  pessoas fortes, mulheres-aço, as quais merecem e acredito que devem ser seguidas. As quais quero lembrar quando respirar fundo  no topo da montanha da vida.
Mas assim como essa chuva, sou infantil e inquieta.
Ainda não pronta, escrevo sobre os erros que ainda não cometi, escrevo sobre os erros com os quais ainda não aprendi
Passo as noites revendo as experiências do dia. Dia após dia.
Pra ver se pego mais apego a mim, se me aconchego melhor, assim, sozinha.
Meu encontro com tanta verdade me fez borbulhar pra dentro , numa infusion de cérebro derretido.
Por isso não consigo agir, meu cérebro ainda esta derretido de verdades.
Mas tenho sorte. Acredito pra caramba nela.
Espero-me incrédula de vasta límpida água tanta
Boiando na loucura que salta aos olhos

Asa branda voando alto, virgem de vida de verdade.