quinta-feira, 17 de maio de 2018

O que desaba de mim são os terremotos fascinantes

O brilho que atenua minha falta
 insensatez atrelada à entre pulos de starts

nada quero dizer com meus erros

e posso sentir que o sentimento é coletivo
rebento antepasso

tardou a tarde a chuva já caiu e ninguém topou iniciar

meu corpo, insólito desejo, máscara fomentada, inquietação amorosa
eu e minhas linhas
meus fios condutores
minhas alegrias e descompassos

hoje já é longe, passaram-se meses, eu mesma passei muito

cada vez o amor se mostra mais
e a cara dele é a cara da loucura

é um sopro madrugada a dentro, é uma vergonha, um empurrão

existência terra-planada nos circuitos onde nossas cicatrizes se encontram

foi chuva que caiu ontem
e eu desaguei com ela

quarta-feira, 14 de março de 2018

aquela velha solidão de arame

minha antiga alma
que bom saber que está aqui
mal vejo seu reflexo mas sinto tua presença nesses pássaros loucos cantando sempre do lado de fora

aquelas agonias vão bem, e as suas?

eu tava experimentando poesias azuis e tentando me lembrar o porquê das coisas quando a janela se abriu num impulso vital
logo ouvi barulhos de passos e pessoas desconhecidas que somam ao nada e
senti medo

as madrugadas tem sido opacas - coração disparado
eu escrevo agora porque tinha também me esquecido que podia o fazer
e somente depois de muito dizer cotidianidades de vida trivial, de dor trivial, de aqueles velhos acordos com a preguiça ancestral do mundo é que tive como poder escorrer de uma forma mais legítima em minhas folhas amarelas

meu eu deslizando escada a baixo

naquele infinito que esperamos, pousa a memória flácida das mãos-dadas, diga, vc também queria não ?

sonhei com um homem que entrava com dois cachorros em casa, e depois se deitava ao meu lado, e mesmo que eu não pudesse sentir nada sobre sua presença e mesmo que eu não o conhecesse - eu me calei, e isso foi o mais estranho de tudo

eu me calei

o mundo tá cheio e arames né não?
eu às vezes não vejo os solos por onde pisar e fico fico fico

sei que tem aquele negócio de se permitir sentir, experimentar o corpo nessa existência
poder provar do amargor das consequências civilizatórias e até fugir se algo importante desmoronar-
tentar me recompor

mas os passos, esses é que absorvem atravessados os segredos da resistência
que é palavra oca
palavra capitalista

pois bem, paremos de resistir à tudo e posemo-nos a nos entregar
enxurradas de dores, amores, tropeços, solidões
arte talvez
choros entupidos, noites sem dormir

até que se desobstruam os canais
até que esteja liberado, enfim, o caminho da liberdade
até que o silêncio não mais incomode
as palavras se aveludem
meus órgãos respirem tranquilos
e todos que quiserem possam querer

repertórios de mim

É um lugar pra guardar meus escritos porém lido bem melhor com papel
eu quero entrar em contato comigo
quero encarar nos olhos a dor do que sinto, a cada minuto
porque isso é melhor do que passar horas fugindo de sentir, sem querer

esses dias tem sido de impertinentes atravessamentos
me vejo atravessada por desejos consumistas, sexuais, financeiros, egóicos
previsíveis nessa sociedade
normais de ter que se lidar

mas como não escolho sentir cada coisa em sua hora, vou acumulando todas
o que forma uma certa bolha de agonia em minha garganta
escuto, escuto, escuto

dou atenção

repito

sinto medo
raiva

agitação e dor

não quero dormir sozinha, não quero dormir em casa, acho que nao tenho casa, acho que nao tenho dinheiro, carreira, acho que nao to sabendo ser feliz, sinto culpa

quero fuga, fugir, fugir, fugir

amar, encontrar, entregar, andar, nadar, sentir


mas quando tropeço nas minhas constituições o mundo não me apoia e é esforço tremendo esse de poder ver por outra ótica
esse de poder sentir por outra via

estou com sede, dormi rapidamente como em desmaio
tenho coisas pra fazer e me esforço pra lembrar o porque de ter que fazê-las
é como se eu não as fizesse por mim
mas é justamente apenas por mim que as faço

não lembrava disso
minha criatividade desponta quando aprendo a ponta da lembrança dos porques mesmo sabendo que são todos fictícios,
pois tem uma linha solta agora escorrendo de minhas mãos.

tem uma lembrança enveludada
e ninguém mais soube entender sobre isso

ontem se repetiu coisas
coisas se repetem sempre
me encontro sozinha e isso é...


não sei mais

 eu mesma

aquela venha solidão de arame


domingo, 20 de agosto de 2017

micro coração furtado

não faz sentido o pequeno momento de êxtase existencial sem poder e característico de mim em privado estado de liberdade em pequenos goles antropofágicos de esquecimento e desatenção abstraídos pela relação de poder presente em tudo que de mim rouba um pedaço da existência de mim e do outro que eu lembrei ontem que sou eu fantasiado de mim e eu invés de eu ir eu regulei os espaços vazios e eu quis voce de qualquer maneira e agora nós não sabemos de nada e por isso sentimos medos e resistimos ferozmente de nós mesmas juntas e meu pulsar antigo e vacilante repousa sempre no espírito do novo horizonte que se segue sempre brilhante e azul dentro de nós num dia triste ou num dia qualquer onde as nossas mãos se encontrem despertas e felizes sem medo de se entregar na minha fase celestial de abertura e entrega pro momento presente delirante de couraças rouxas e pretas que se descolam a medida que tomamos consciencia dela e depois ela repousa suave e intrépida pelas nossas peles amarelas de vontade de amar.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A felicidade como uma bolha translúcida de sentido

Repelem-se os seres que navegam no oceano da guerra
é método infalível de separação e dor

se queres amar, pelo contrário
mergulhe fundo na des-ilusão de se perceber imerso no mar
à deriva
transmitindo misericórdia por entre os poros anuviados

É tudo transmutação do sentido fixo
do entendimento teso

no fogo do alto da montanha
na caminhada silvestre por abraços e perdões

desperta, irmandade
desperta o amor

Vassouras gastas
empilhadas nas costas dos gigantes faladores
minha pulsão por refrões desidratados de poesia e sedentos de beleza

há caminhões nos esperando se insistirmos em demorar na derrota
o esquecimento da fogueira: causa primária da cicatrizes do desrespeito
nós não somos loucas
somos sim loucas
avariadas

atormentadas pela necessidade de atender a vida
à justiça
por fim à tranquilidade necessária para se mergulhar nas águas sagradas de uma cachoeira verde-azul e fria
de sol ameno, adentrando timidamente a mata
da floresta de Oxossi
da mãe Oxum

do Axé transcendental de nossos antepassados não apagados
não higienizados de branco
não silenciados de sangue

porque essa história escapou e ficou escrita nas notas musicais dos intervalos tênues dos séculos
nos intervalos entre as nuvens

nos intervalos entre as pausas das respirações
entre os segundos do relógio da Igreja verde claro da cidade do interior do mundo

da aguá clara do rio de peixes dourados
nos passos do índio


nos vãos dos dedos das crianças pintadas de vermelho
descalças nas ruas de terra antiga

meu eu enraizado
desuniformemente livre
humanamente esparramado, espaçado de ar
eternizado no sorriso atemporal de qualquer pessoa que ouse dizer a palavra.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Vertigem

Eu não sei qual é o problema de dizer não e ver tudo despencando céu a baixo
e nós no desconforto de receber sobre nossas cabeças a sentença de covardes

aquelas nuvens coloridas sempre passeiam as quatro horas da madrugada de terça
e olha
nem os pássaros mais espertos sabem disso
porque sempre dormem
independente

é como um contrato de sono estendido no decorrer dos anos
eles possuem o dia, mas perdem a noite

Eu, já não possuo nada, nem o dia e nem a noite
respiro com dificuldade nos dias de frio e nem falo alto quando preciso

caiu um pano escuro esses dias pela sala e mesmo o vendo escorreguei. Foi uma dança leve e fluida, meu encontro com o chão foi suave e sedutor, minhas mãos inseguras tateando os tacos, a temperatura morna que o sol deixou, e eu lá, meu corpo com os ossos arredondados, encostados na pele que encostava nos tacos de madeira e verniz.
meu rosto frio, minha boca entre aberta meus olhos fechados na sala vazia
tinha um meio sorriso também
um sopro

Naquela enseiada de amor, nós reviramos os silêncios ...  e a política vai mal, né meu bem?

Reconheço que o caos que se segue nunca foi visto antes

tem muito vendaval saindo da prisão da mentira
nossos reconhecimentos terão de ser usados baby
e nossas promessas também

anoitece sempre quando é hora
e damos sempre o que precisamos dar


E agora faz dois dias que chove e esfria....
não encosto tanto assim no chão mas continuo acreditando que é melhor ficar descalça, sentindo

sentindo o chão, o limite, a realidade, o que me cabe, o que me transborda, o que me escapa e o que me pertence. Escolho mas sempre olho de lado.

Tua dança me encanta, justamente porque sei que ninguém pode acompanhar.
eu escorrego porque sou feita de sublimes porções de ar e fogo. Então eu passo e entro.



quinta-feira, 13 de abril de 2017

Declínio

Meu amor, o verão mal passou e já estamos nós aqui de novo a verificar os pequenos estragos da chuva de lua cheia que caiu ontem

a gente bem sabe que não somos feitas de açúcar e que meu talento teso pras precariedades sempre se mostra com mais veemência quando fica frio


Declínio

Eu e você
Éramos muita coisa no mundo das cicatrizes
O vento chegou
Assoprou meus labirintos
E arrepiou meus medos
Éramos nada
Cada parte da cabeça pendia para um lado.
Eu era respiração e reza

Meu coração atropelado corria pelo campo pedindo ajuda a alguém
Mas ela só ele. Sozinho.

É que chega um dia em que todos precisam partir levando suas máscaras
E eu estou sem força nesse momento, cansada, afogada.

A fumaça que ingerimos constantemente é uma tentativa esquisita de por fim aos desenganos
Somos todas sugadas por esse tentar
Meus quase 23 anos me mostram alguma paisagem colorida, porém anuviada

Tudo descortina, dá medo e dor,
Mas é bom.

Foi assim que pude compreender aquela festa.
Minha máscara de desigual e incompleta. Provocava-me nojo.

Meus pés se deslocavam no chão de mata molhada.
Eu os sentia na cabeça,
Meu tratamento é a liberdade.

Mas ela não pode vir a galope.
pois assim descampa minhas centelhas protetoras de ilusão que moram no esconderijo da pele
minha vaidade despedaçada
me enriquece de inverdades

Meu corpo se abrindo
Meus músculos se contraindo
Seu eu desgovernado sobre meu interior

A voz estremecida de nuvens, o cais do porto amarelo de folhagens vindas de sonhos.
O barulho das folhas secas com os nossos passos descalços, e eu sentindo que tudo podia continuar

lava de amor carnal
As portas se fecharam e ficamos do lado de fora

Até quando não sabíamos das nossas vísceras escancaradas de sangue cru
Aquele dia que você foi embora na chuva e fiquei sentindo sua falta.
Seu toque aveludado e a lembrança dos seus lábios quentes, mortíferos ao meu estômago e minhas gengivas. atônitas com teu suor

cigana

na estrada eu estava procurando redes de pesca. Queria ser água.
o significado espesso

jogos sem ganhadores
A fragilidade de uma infância inventada.
Como é possível o amor acabar
se fragmentar por entre lágrimas constrangidas e tingir de escuro aquela tarde quente

meu oceano animal inflável
minha misericórdia líquida
a desaguar razoes extintas
justificativas impróprias

"entre os olhos de água infinitos, se banham as estrelas do mar..."