quarta-feira, 19 de novembro de 2014

A arte do acaso – Barcelona 03/10/2014

E naqueles dias de chuva em que se é capaz de mudar todos os planos pra ficar em casa e não fazer nada: saí em busca do céu.
Na primeira parada do metro, encontrei-me com uma realidade que há tempos não me lembrava( pode-se esquecer facilmente essas coisas). Uma exposição sobre trabalho infantil no Peru me aguardava.
Com fotos que me transportaram pra um mundo de desencanto, colorido pelas cores do  lixo.
Crianças, mulheres e homens sorrindo em meio aos destroços que ninguém quer mais. Fazendo de sua morada, a única possível, diga-se de passagem, a morada dos urubus.
Permaneci insólita nessa exposição por cerca de 40 minutos. E nesse corredor de morte e de dor, ninguém quis entrar.
Uma exposição gratuita de realidade completamente vazia, em uma das cidades mais turísticas do mundo.
Corro o risco de ser julgada como “a única pessoa que entrou” ou a “ boazinha”, mas levando em consideração o que isso representa e o poder dessa exposição e dessas conclusões sobre mim, passo adiante o medo de me expor e a possibilidade insignificante de escrever essas palavras em vão. Além do mais já passou das 2horas da manhã, estou afogada na contrariedade da vida , não dá pra continuar com preguiça  de discutir.
Eu respirei o ar cheirando a lixo, senti a tristeza da injustiça social sobre minha cabeça, assim como uma pedrada beeem forte, sem esperar, e me retirei. Flutuando na desgraça ou graça do acaso que se ocupa da “arbitrária roleta genética”que se ocupou de mim e me sorteou como turista em Barcelona, e não como protagonista dessas fotos.

A cada passo que eu dava, a cada cheiro que eu sentia, depois já caminhando por uma das avenidas comerciais mais ricas de Barcelona, me questionava o que podia ser mais contraditório: uma exposição daquelas que arrancava as lágrimas dos olhos com a mesma violência que mata aquelas crianças de fome em todo o mundo estar disposta à 5 minutos de uma obra de Gaudi , onde pessoas muitas vezes lindas e burras atravessam apressadas com suas sacolas de compras e são incapazes de perceber o “outro mundo” que não é outro, e sim o mesmo, ao seu lado, em baixo dos seu narizes finos empinados; ou eu, ali, caminhando com minhas roupas de brechó, minhas frutas na mochila e meus olhos de assombro de quem vê o mundo pela primeira vez.










O dia segue comigo, meu ego e o mundo
Alguns passos, mais um metro, fico perdida por 20 minutos porque não possuo a capacidade de me achar em mapas ( inclusive nos mapas da vida) e me deparo com outra exposição.
E dessa vez foi ainda mais forte, não pude respirar quando li o nome, foi  muito profundo e muito surreal pra de fato acreditar.
Há anos leio livros sobre a vida das mulheres no Afeganistão. Suas dores e sua realidade são tão ensurdecedoramente tristes que me arrebatam, me tomam por completo interesse.
Muitas pessoas conhecem  o livro chamado “O  Caçador de Pipas”, e o mesmo autor escreveu mais dois livros chamados “A cidade do Sol” e “ O Silêncio das Montanhas”. São três obras lindas, se é que se pode dizer isso, porque são realmente fortes. Profundas. Profundamente tristes. Não é todo mundo que gosta ou se sente bem. Eu entendo perfeitamente quem não gosta.
Essas obras tratam da vida das mulheres afegãs. “Coincidentemente” o mesmo tema da segunda exposição que me pegou pela mão no meio da rua e me levou pra dentro desse mundo.
Os e as personagens das histórias dos meus livros estampados(as) na parede, bem grande, bem próximo, bem na minha frente. De graça. Sem querer.
Estasiada pela exposição das crianças do Peru, fui transportada para  essa outra realidade, esse outro  mundo, realidade essa parecida em relação a níveis de violência, morte e dor.
Essa é também a minha realidade. Essas mulheres também sou eu, somos nós. São muito mais que nós , na verdade. São mais fortes. Mas ninguém as vê.  Poucas pessoas ao ouvem, poucas pessoas as ajudam.
Saí dessa exposição trocando os passos, perdendo os pensamentos em riachos de confusão e inverdades.
De tudo que eu não sei, sei que minha realidade que não é Barcelona City, minha nada europeia vida me deu um banho de água com gelo e sangue hoje. Sangue das mulheres do Afeganistão e das famílias que vivem no lixão no Peru.
Tentei continuar respirando, caminhei e caminho até agora, só que diferente, meu caminho parece estar um pouco mais forte, digo, melhor traçado.
Sei que esse sofrimento todo também existe no meu país, sei que há disso por toda parte. Resta continuar. Resta tentar.

O coração bate forte, aos pulos, e os olhos celebram a desconfiança, observam  a cultura do terror e da violência mas brilha quando acredita no amor que eu sei que exite em nós.
















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