É França mas na mesa do café da manhã há 4 alemãs, um casal
de espanhóis, e uma brasileira. Ou melhor, hoje
sou um pouco mais, opto por ser América do Sul, opto por ser colônia.
Colônia de exploração.
A falta de articulação e de vocabulário me faz, mais uma vez,
atuar como apenas observadora, ouvinte. Telespectadora do diálogo que flutua
sobre opniões parecidas e compartilhadas. Eles falam sobre os novos ricos.
Sobre os super citados turistas russos.Que estão por toda parte. Dizem que
agora a Europa está cheia de turistas muçulmanos e russos, que fazem apensas
flutuar por entre os museus com suas máquinas fotográficas baratas, não
entendem e não contemplam a arte, apenas querem fotos pro facebook.
Dissertam sobre a falta de sensibilidade, sobre o estresse
que passam ao visitar qualquer ponto turístico, porque são obrigados a assistir
aos novos turistas que compram pacotes de 10, 20 ou 30 dias ( no máximo) para
conhecer 5, 6 países. “ Como se fosse possível isso!”
Apostos que eles perceberam meu incômodo, tanto que o
assunto foi cambaleando, tropeçando, baixando o tom até que pairasse morto
sobre nossas cabeças, como um fantasma. Não posso compartilhar minha opinião com
ninguém daqui pois infelizmente não podem compreender, não podem sentir.
Há tempos que venho pensando nisso, em até onde podem chegar
as diferenças culturais, e ideológicas de alguém que nasceu num lugar que já
foi considerado nada, depois se transformou em “quintal”, “horta” ou “mina de
ouro”, tanto faz, e agora tenta ser alguma coisa, cambaleando e caindo
muito. Não tive como dizer na
conversa que enquanto eles desenolviam
sua sensibilidade artística, seus livros e suas obras de arte, tinha gente
trabalhando duro pra manter suas dispensas
completas de café, açúcar, chá etc . Tão necessários pra criação
artística, dos que produzem arte, dos que se acham arte. E que agora, os filhos e netos dessa gente que
morreu de tanto trabalhar estão talvez tendo a chance de visita-los ( com muita
sorte, como o meu caso). Estão comprando esses pacotes de viagem, com grandes
sorrisos nos rostos. Estão consumindo a cultura que é a nobre, que é a
verdadeiramente boa. Russia, Polônia,
Arábia, Amarica Latina. Pacotes super promocionais.
Tento ao máximo não generalizar, nem culpabilizar ninguém,
afinal é só isso. A vida sendo vida.
Esses pensamentos borbulharam horas e horas na minha mente, como o café
na minha mesa, até que viessem a desaguar nos teclados do meu companheiro
computador barato.
Hoje me senti ofendida e entalada quando ouvi europeus
reclamando dos turistas russos e muçulmanos (não citaram os brasileiros, mas
eu fiz questão de fazer isso). Porém eles não enxergam que essa gente só compra essa “cultura
empacotada” (com tradutor), porque ela está lá, pronta pra ser vendida. Eles a fabricam e reclamam das pessoas que a
compram.
Sinto saudades dos meus amigos e amigas , que iriam ajudar a
consolidar a minha pequena e inocente crítica.
E numa hora como essa que a aproximação da volta me desperta
um sorriso meio que infantil, desapercebido
eu diria, acanhado .
Essa noção de territorialidade e de fronteira, possessão de
terra, cultura consagrada, deve ser a responsável por inumeráveis mortes, disso
todo mundo já sabe.
Mas respiro profundo e acalmo a minha alma quando ouço os
versos de uma canção muito cantada por aqui: “ Terra es mi cuerpo, aguá mi
sangra, are meu aliento e fogo mi espírito”.
Habitam no Universo , meus caros, consomem da natureza que
não tem dono, mas que é nossa dona. Quem
é mesmo o dono do mundo?
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