domingo, 5 de outubro de 2014

Desabafo Abafado

É França mas na mesa do café da manhã há 4 alemãs, um casal de espanhóis, e uma brasileira. Ou melhor, hoje  sou um pouco mais, opto por ser América do Sul, opto por ser colônia. Colônia de exploração.
A falta de articulação e de vocabulário me faz, mais uma vez, atuar como apenas observadora, ouvinte. Telespectadora do diálogo que flutua sobre opniões parecidas e compartilhadas. Eles falam sobre os novos ricos. Sobre os super citados turistas russos.Que estão por toda parte. Dizem que agora a Europa está cheia de turistas muçulmanos e russos, que fazem apensas flutuar por entre os museus com suas máquinas fotográficas baratas, não entendem e não contemplam a arte, apenas querem fotos pro facebook.
Dissertam sobre a falta de sensibilidade, sobre o estresse que passam ao visitar qualquer ponto turístico, porque são obrigados a assistir aos novos turistas que compram pacotes de 10, 20 ou 30 dias ( no máximo) para conhecer 5, 6 países. “ Como se fosse possível isso!”
Apostos que eles perceberam meu incômodo, tanto que o assunto foi cambaleando, tropeçando, baixando o tom até que pairasse morto sobre nossas cabeças, como um fantasma.  Não posso compartilhar minha opinião com ninguém daqui pois infelizmente não podem compreender, não podem sentir.
Há tempos que venho pensando nisso, em até onde podem chegar as diferenças culturais, e ideológicas de alguém que nasceu num lugar que já foi considerado nada, depois se transformou em “quintal”, “horta” ou “mina de ouro”, tanto faz, e agora tenta ser alguma coisa, cambaleando e caindo muito.  Não tive como dizer na conversa  que enquanto eles desenolviam sua sensibilidade artística, seus livros e suas obras de arte, tinha gente trabalhando duro pra manter suas dispensas  completas de café, açúcar, chá etc . Tão necessários pra criação artística, dos que produzem arte, dos que se acham arte. E  que agora, os filhos e netos dessa gente que morreu de tanto trabalhar estão talvez tendo a chance de visita-los ( com muita sorte, como o meu caso). Estão comprando esses pacotes de viagem, com grandes sorrisos nos rostos. Estão consumindo a cultura que é a nobre, que é a verdadeiramente boa.  Russia, Polônia, Arábia, Amarica Latina. Pacotes super promocionais.
Tento ao máximo não generalizar, nem culpabilizar ninguém, afinal é só isso. A vida sendo vida.  Esses pensamentos borbulharam horas e horas na minha mente, como o café na minha mesa, até que viessem a desaguar nos teclados do meu companheiro computador barato.
Hoje me senti ofendida e entalada quando ouvi europeus reclamando dos turistas russos e muçulmanos (não citaram os brasileiros, mas eu fiz questão de fazer isso). Porém eles não enxergam  que essa gente só compra essa “cultura empacotada” (com tradutor), porque ela está lá, pronta pra ser vendida.  Eles a fabricam e reclamam das pessoas que a compram.
Sinto saudades dos meus amigos e amigas , que iriam ajudar a consolidar a minha pequena e inocente crítica.
E numa hora como essa que a aproximação da volta me desperta um sorriso meio que infantil, desapercebido  eu diria, acanhado .
Essa noção de territorialidade e de fronteira, possessão de terra, cultura consagrada, deve ser a responsável por inumeráveis mortes, disso todo mundo já sabe.

Mas respiro profundo e acalmo a minha alma quando ouço os versos de uma canção muito cantada por aqui: “ Terra es mi cuerpo, aguá mi sangra, are meu aliento e fogo mi espírito”.

Habitam no Universo , meus caros, consomem da natureza que não tem dono, mas que é nossa dona.  Quem é mesmo o dono do mundo?




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